• Renato Fernandes

A Bala de Prata

Essa é uma continuação do conto "A Pena de Prata" (disponível nos Cadernos Cáusticos), inspirada em notícias desanimadoras como a do link a seguir (https://oglobo.globo.com/cultura/taxacao-de-livros-proposta-em-reforma-de-guedes-pode-ter-efeito-devastador-alerta-setor-24549569)



Alberto deslocou os tapumes e abriu a porta com um empurrão. O salão escuro exalava um cheiro abjeto de cinzas e mofo. Pediu ao homem que o acompanhava que entrasse e fechou a porta improvisada atrás de si, acionando em seguida a lanterna que trouxera para iluminar o recinto.


- Depois do incêndio ninguém mais veio até aqui. Claro, com exceção do pessoal que retirou os escombros.


O homem assentiu com a cabeça, observando desatento as paredes enegrecidas pelo fogo. Ao menos o ponto era bom, e o preço condizente com a situação lamentável do imóvel.


- Meu tio fundou a livraria nos anos cinquenta e cuidou disso aqui durante toda a vida.

Depois que faleceu, um empregado tocou o negócio por mais uns anos, mas só me dava prejuízo.


- Eu me lembro, passava por aqui sempre que precisava ir ao centro da cidade – emendou o homem com uma voz monocórdica.


Alberto pensou por um momento na história contida ali naquele sobrado, os milhares de clientes entrando e saindo ao longo de todos aqueles anos carregando sabe-se lá quantos exemplares de livros novos dos mais variados temas. A “Pena de Prata” havia sido uma verdadeira referência na cidade. Mas isso estava no passado. As pessoas agora davam mais importância a se agachar para recolher a merda dos cachorros na rua do que para apanhar um livro do chão.


- Uma tragédia o que aconteceu aqui, né. – disse o homem, trazendo Alberto de volta de seu devaneio.


- Pois é, infelizmente o funcionário acabou tendo uma morte horrível. Eu avisei que insistir em vender os livros proibidos pelo governo iria acabar mal, e olha o que aconteceu. O pessoal da Assembléia Vitória em Cristo acabou jogando um coquetel Molotov na livraria, tomei um baita prejuízo e o Jorge perdeu a vida tentando salvar alguma coisa.


- São os novos tempos. Bom, gostei do lugar. Claro que precisará de uma boa reforma, um investimento realmente pesado. Mas com os incentivos atuais, acho que dá pra fechar negócio.


- Que mal lhe pergunte, que tipo de negócio pretendem abrir aqui?


- Uma loja de armas. Pensamos em chamá-la de “A Bala de Prata”, para fazer nossa devida homenagem à antiga loja. Que tal?


A escrivaninha de seu velho tio, parcialmente carbonizada pelo fogo e recostada ao fundo da loja em ruínas, rangeu amargamente. Alberto engoliu em seco, enquanto concordava balançando a cabeça. São os novos tempos, pensou.

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