• Renato Fernandes

A Pena de Prata

Jorge observava, consternado, a vitrine despedaçada da livraria em que trabalhava há exatos trinta e sete anos em uma movimentada avenida no centro do Rio de Janeiro. O letreiro de latão em estilo medieval, pintado em cores esmaecidas pelo tempo, ostentava o nome do estabelecimento que sempre foi referência na cidade em se tratando de literatura brasileira: “A Pena de Prata”. Ele sempre achara o nome um tanto sem graça e pomposo mas nunca tivera coragem de dizê-lo ao velho Borges. Provavelmente ele lhe teria respondido que, ruim ou não, o nome pouco importava frente ao sucesso dos tempos áureos da livraria. Decerto também não adiantaria argumentar que tal fase de sucesso estaria localizada há mais ou menos cinquenta anos no passado, e que os novos tempos demandam um mínimo de atualização. Tinha sido um velhote teimoso como uma mula.


Afastou o devaneio com um movimento brusco e descoordenado da mão esquerda. Nada disso fazia sentido agora que o velho Borges estava morto e os novos tempos estavam ali perfeitamente sumarizados naquela bagunça de cacos de vidro, fezes humanas e páginas amarrotadas. Se aquela tivesse sido a primeira vez ao menos lhe restariam forças para tentar recuperar parte do estrago. Mas após o quinto atentado só conseguia mesmo encarar melancolicamente os destroços e contabilizar os prejuízos, que se somariam às já deficitárias finanças da loja.

Após adentrar tropegamente pela porta, retornou com um balde, vassoura e panos de chão para iniciar a dolorosa arrumação. Os transeuntes passavam observando atentamente a vitrine despedaçada, mas ao notarem a presença de Jorge, o único funcionário, dissimulavam rapidamente, como se tivessem cometido algum equívoco ao deitar os olhos sobre aquela fachada. Assim, imerso na indiferença do vai e vem urbano, Jorge varria e esfregava a imundície. Debaixo de um exemplar particularmente sujo de “A hora da Estrela” de Clarice Lispector, encontrou o já conhecido conjunto formado por uma pedra amarrada a um bilhete e um saco plástico, agora vazio, com restos de urina e excrementos. Tirou do bolso da calça um par de luvas de limpeza e, fazendo um esforço hercúleo para não vomitar, vestiu-as para desprender o bilhete do barbante e abri-lo. Nele estavam contidas apenas cinco palavras, cujo peso naquele instante superava em impacto a soma de todo o palavrório verborrágico do Ulisses de James Joyce: “Da próxima vez será pior”.


Ele sinceramente não conseguia imaginar o que poderia ser pior do que ver todos aqueles livros não lidos, aqueles tomos ainda incompletos em sua função de objeto, serem descartados junto com a sujeira simbólica do desprezo dos homens. Enquanto recolhia os cacos e dejetos depositados sobre uma prateleira com exemplares de “Vidas Secas” de Graciliano Ramos, refletia sobre as possíveis  motivações de atos como aquele. Jorge era de um tempo no qual livros eram respeitados como tijolos fundamentais na construção da imensa, talvez infinita, catedral do conhecimento humano. Quando emigrou ainda menino para a metrópole, acompanhado de sua família que fugia da aspereza das carências básicas, sabia de forma muito instintiva que os livros acumulados sobre as estantes daquela mesma livraria seriam seu passaporte para uma vida melhor. Sempre se orgulhava de contar aos poucos interessados em sua trajetória como tinha conseguido seu primeiro emprego formal. A possibilidade de conviver diariamente com os livros e seus cheiros peculiares, apreciar a textura macia de suas páginas, vislumbrar os reflexos indiretos de todo aquele oceano de ideias e criatividade, era algo para o que, francamente, nem precisariam lhe pagar. Obviamente o velho Borges, muito consciencioso sobre seus deveres de cidadão, nunca atrasara em um dia sequer de seu pagamento nos mais de trinta anos que trabalharam juntos. Agora a mesa envelhecida ocupada pelo antigo dono descansava vazia nos fundos da loja, onde sempre esteve, pois Jorge se recusava a assumir o posto do velho livreiro. Mesmo o herdeiro, um displicente e irascível sobrinho que só sabia receber os balancetes deficitários a ameaçar fechar o estabelecimento, evitava fazer visitas ao local. A presença do tio era tão forte que sua voz grave ainda se fazia ouvir entre as prateleiras.


O gerente d’A Pena de Prata terminou de embalar o lixo proveniente de sua limpeza preliminar que seria concluída a noite pela faxineira e telefonou para a vidraçaria. Era a sexta vez nos últimos dez meses. Após realizar a encomenda, depositou as mãos trêmulas sobre suas escrivaninha e respirou fundo. A sineta da porta de entrada tocou um breve cântico, e Jorge se pôs prontamente em pé com a esperança  de receber um cliente. Era o carteiro. O funcionário dos correios, após entregar em mãos a correspondência, pediu um copo d’água e passou a analisar os títulos na estante de Filosofia. “Vigiar e Punir”, sibilou entre os dentes. Agradeceu a água e saiu com uma expressão cansada.


A correspondência se resumia a comunicações em massa de editoras com as quais trabalhava há muitos anos. Nos últimos meses recebia atualizações constantes dos catálogos, sempre informando sobre edições que não teriam novas prensagens. Lembrava perfeitamente quando havia recebido a primeira delas. A carta informava que toda a seção de livros de autoras feministas da Editora Parlatório deixaria de ser produzida e vendida. Em seguida, a tradicional Editora Sabiá deixou de publicar os livros de Christopher Hitchens e Bertrand Russel sobre ateísmo, sendo prontamente seguida pelas demais editoras. Nos meses posteriores, já não estavam mais disponíveis livros de nenhum intelectual da Escola de Frankfurt, de Noam Chomsky, de Eduardo Galeano e de Vitor Hugo. Quanto aos brasileiros, desapareceram Paulo Leminski, Caio Fernando Abreu e Chico de Oliveira. Certo dia necessitou de mais exemplares de “Grande Sertão: Veredas” e descobriu que tinha deixado de constar nas listagens. Telefonou para o Onofre da livraria concorrente, que também se demonstrou consternado com a situação. Numa voz abafada, como que dissimulando as palavras, comentou: “Dizem por aí que amizades como a de Riobaldo e Diadorim agora estão sendo chamadas por outros nomes”.


Perdido diariamente em meio a suas estantes repletas de lombadas, Jorge sempre achou uma perda de tempo acompanhar o desenrolar no entediante novelo político que ocupava demasiadamente as páginas dos jornais. Após o luto pela morte de Borges, encontrou forças para tentar entender o que acontecia no mundo, dadas as seguidas baixas nas vendas da livraria. Acompanhara vagamente o caos em que o país sempre estivera metido, mas cultivava especial desprezo pela coalizão que ocupava o poder atualmente, há mais de dez anos. Para Jorge, aqueles homens não passavam de uma mixórdia de lunáticos, carolas e embrutecidos, mantidos em seus cargos em função do desespero e da falta crônica de elementos críticos por parte dos eleitores.

O que interessava de fato para Jorge era que o movimento de leitores na livraria, que já não era grande, minguou de vez. Em um perfeito e infeliz sincronismo, as pessoas deixaram de consumir livros ao mesmo tempo em que as editoras começaram a deixar de publicar áreas inteiras do conhecimento. O fato é que a divulgação das famosas listas de livros “não aprovados” pelo governo e seu séquito de líderes religiosos desencadeou o golpe final no já claudicante ramo editorial e de varejo. Em meio a discursos inflamados, atribuiu-se aos livros sobre racismo a alcunha de “panfletários e revisionistas”. Com isso, tudo produzido sobre o tema desde Gilberto Freire sumiu das prateleiras. A literatura russa em pouco tempo tornou-se amaldiçoada, mesmo após os seguidos artigos de especialistas afirmando que Dostoievski, Tolstói e Gógol, ao menos diretamente, não tinham relação com o comunismo e nem com a “perversão” de Nabokov. Em seguida todo o realismo fantástico foi declarado impróprio, por “corromper a realidade objetiva dos fatos”. Nem mesmo Vargas Llosa foi poupado, apesar de ser conhecido como um proeminente liberal. Em pouco tempo, as livrarias que resistiram possuíam apenas estoques combalidos ante uma oferta cada vez maior de livros de auto-ajuda, empreendedorismo e religião. A Pena de Prata foi um dos poucos estabelecimentos que permaneceram em seu perfil original, principalmente em função de sobras editoriais acumuladas durante décadas. Foi quando começaram os ataques às vitrines.


Jorge depositou os catálogos sobre a mesa e absorveu o silêncio do ambiente. Pelo que se recordava, havia três semanas que nenhum comprador entrava na loja. Do ponto de vista comercial, ele deveria ter compartilhado essa informação com o sobrinho do velho Borges há bastante tempo. Mas o que menos o preocupava era a opinião daquele pulha interesseiro e inculto. O verdadeiro motivo de consternação era o destino daqueles livros se tivesse que fechar as portas de vez. Quem os compraria? Iriam estas páginas nunca folheadas diretamente para a reciclagem, ou pior, para um aterro sanitário? Em tempos nos quais os homens passaram a atacar a mera menção a ideais divergentes, o que seria feito dos objetos que os problematizam? No fundo, Jorge sabia que aqueles atentados eram obra de um certo contingente de fanáticos e não correspondiam às intenções reais da maioria da população. Mas que diferença isso fazia, se sequer conseguia convencer as autoridades a investigar os atentados que vinha sofrendo? De toda forma, tomara há algum tempo a decisão de não desistir daquilo que o mantivera vivo por tantos anos. Lembrou-se então de certa passagem de um livro que foi buscar no quartinho dos fundos, onde guardava suas obras favoritas. Acabou deixando-o aberto sobre a mesa antes de baixar as grades externas e fechar a loja, como sempre fazia, ao perceber que já eram dezoito horas.


No dia seguinte, o centro da cidade foi despertado de sua sonolência matinal pelo som histérico das sirenes dos bombeiros. Sob os olhares indiferentes dos trabalhadores que desciam de seus coletivos, os oficiais bloqueavam a calçada e parte da rua na altura de uma velha livraria. Ainda tentavam promover algum combate às chamas, mas praticamente tudo havia sido queimado. Após a realização do primeiro rescaldo as autoridades decidiram adentrar no que restara do imóvel em busca de vítimas. Ficou comprovado posteriormente pela perícia que, por volta das sete horas da manhã, um objeto em chamas foi atirado propositalmente à vitrine já destruída da livraria A Pena de Prata. Testemunhas indicaram que a loja vinha sofrendo ataques frequentes por "ainda vender aqueles livros imprestáveis", segundo registrado nos autos do processo. A loja teria sido aberta poucos minutos antes pelo gerente, um homem entre cinquenta e sessenta anos sem parentes próximos e sobre o qual pouco se sabia além das informações dos registros civis oficiais. Seu corpo foi encontrado parcialmente carbonizado entre os escombros, em uma posição que poderia remeter à tentativa de proteger um objeto em específico. Um dos peritos não pode deixar de observar, ainda que não tenha ficando registrado nos autos, que o volume retirado dos braços da vítima era uma antiga edição do livro “Fantasmas tangíveis” do escritor polonês Saul Jazewski. Os poucos que ainda se dedicavam à literatura, incluindo o perito, que o fazia em segredo, conheciam algo sobre a vida deste autor que não sobreviveria à Segunda Grande Guerra. Jazewski era o único escritor conhecido a ter conseguido a façanha de ser odiado pelos nazistas em função de sua origem judaica, censurado pelos comunistas por ter problematizado os limites do coletivismo e desdenhado pelo ocidente por ter desnudado precocemente a falta de sentido das sociedades de consumo.


Os restos do tomo continuam depositados em um imenso galpão pertencente à Polícia Estatal, para o qual são destinadas as provas periciais recolhidas nas cenas dos crimes classificados como “Sem solução”. Foi armazenado da forma como foi recolhido, aberto em uma página que ostentava ainda os vestígios quase apagados das seguintes palavras:


Quando não há mais lugar para novas ideias

Quando a mera menção ao outro não é mais tolerada

Torna-se intolerável também a vida

Ao humanista recai, então, a responsabilidade de lutar

Contra o monstro da unanimidade, ou desistir

Ofereço meu repúdio a este infame paradoxo

Perecendo em meio às ruínas do invento humano

À espera de que meu sangue fertilize a alvorada de melhores tempos

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