• Renato Fernandes

O último adágio

Da janela do décimo primeiro andar do Edifício Ludwig, Horácio observava distraído a sucessão calma e constante das vagas que vinham encontrar seu destino final na praia de Copacabana. A posição central do edifício permitia uma visão ampla da faixa de areia banhada pelo mar naquele entardecer de outono, quando o calor começava a ceder e dar espaço a anoiteceres sucessivamente mais agradáveis.


Alto, branco e estático, Horácio parecia, à distância, mais uma das colunas dóricas que compunham a porção frontal do enorme salão de seu apartamento. Passava muito tempo ali, analisando o andar errático dos transeuntes em meio a seus afazeres diários. Gostava de tentar adivinhar a origem e destino daquelas pessoas miniaturizadas, suas vontades, profissões, paixões, acompanhando-as até que não conseguisse mais as distinguir em meio à multidão. No entanto, com o passar dos anos, tinha cada vez mais dificuldade em exercer o passatempo. Perdia as pessoas com facilidade e, quando dava por si, havia passado horas fitando o horizonte sem sucesso. Sua própria imaginação para criar os enredos daquelas vidas vinha sendo corroída, talvez pela idade, talvez pelo cansaço.


Aos setenta e dois anos tinha a impressão cada vez mais nítida de que as reminiscências do passado acabavam por ocupar todo o espaço de que os fatos do presente deveriam dispor, como visitas indesejadas em uma casa diminuta. É claro que, por haver vivido muito e bem, não lhe faltavam memórias e considerações a ser despertadas como referência passada a praticamente qualquer ocasião atual. Mas não podia deixar de se incomodar ao perceber que, ao folhear o jornal, por exemplo, o que de melhor extraía para si eram recordações, não notícias. Sequer poderia repetir o que acabara de ler ao repousar o jornal sobre a mesa, mesmo tendo lido cada palavra atentamente. Temeu por isso durante toda a vida, mas a velhice havia chegado sorrateiramente e lhe esfaqueado pelas costas. Como a tantos e tantos homens, sucessivamente, neste mundo esquecido por Deus. Deu de ombros e se afastou das janelas enquanto o restante de luz da tarde se afogava na escuridão azul do oceano.


- Seu Horácio, o jantar fica pronto em trinta minutos.


Era Piedade, sua governanta há mais de vinte anos, que havia irrompido sala adentro com seus previsíveis e irritantes lembretes diários. Olhou de soslaio para a maranhense resoluta e de expressão imperiosa metida no seu cotidiano uniforme preto, o avental alvíssimo espalhado de maneira uniforme sobre o ventre inchado pelos anos de boa alimentação e inatividade. Refletiu por alguns segundos se deveria dizer algo, ou apenas manter o discreto aceno de cabeça que indicava que havia compreendido. Preferiu aproveitar o ensejo para exercitar sua verve sádica, cada dia mais aflorada.


- Eu creio que você e Elisa andam conspirando para que eu empacote de vez com toda essa comilança. Pois se acabei de tomar o lanche gorduroso e inapropriado que me obrigam a engolir todas as tardes, por que, em nome de Deus, estaria eu com fome? Vocês me tomam por alguma espécie de glutão? – trovejou de forma seca, os olhos enfiados em meio ao cenho franzido.


- De forma alguma, senhor. Sabe muito bem que queremos o melhor para sua saúde. E de minha parte, não consigo entender o motivo de tanta reclamação nos últimos dias. Por acaso o senhor se esquece de que sempre, desde que trabalho aqui, o jantar é servido pontualmente às dezoito e trinta? – rebateu Piedade, de forma desafiadora, ao elevar ligeiramente a posição do queixo em relação ao pescoço quase invisível.


- Que seja. Não sei onde vamos parar com essa intervenção de Elisa aqui em casa. Você duas andam conspirando pelas minhas costas, tenho certeza. Lembre-se, Piedade, de quem paga seu salário nababesco há todos esses anos, sem um dia sequer de atraso. É a mim que você deveria prestar contas, e não a uma filha que mal vem fazer uma visita ao velho e inútil pai. – Horácio engoliu em seco frente à dureza das próprias palavras. Não conseguia se recordar de ser tão ríspido assim quando era mais jovem.


- Aí está o motivo de receber tão poucas visitas, Seu Horácio. O senhor por acaso se esquece de que Elisa esteve aqui no último sábado? Não sei o que espera sendo agressivo assim conosco, mas tenho certeza que vai acabar afastando as poucas pessoas que realmente se importam com seu bem estar. Menos a mim, que de minha sina não reclamo. Viver aqui enclausurada com um patrão ingrato é a cruz que tenho que carregar. Que Deus me perdoe! – e saiu de forma espaventada em direção à cozinha, provavelmente para finalizar o jantar.


Horácio não conseguiu deixar de pensar que, se alguém o tratasse daquela forma sendo ele o responsável por fazer o jantar, certamente daria uma boa cusparada na panela de feijão.


***


Após o jantar, que mais uma vez estava insosso como cubos de gelo ao molho de água morna, provavelmente por não deixarem mais que ele comesse sal ou qualquer outro tipo de tempero digno do nome, sentou-se na poltrona de seu quarto com as janelas abertas para aproveitar a brisa noturna. Piedade, após terminar seus últimos e triviais afazeres, despediu-se com um grunhido de boa noite a partir do corredor que dava para os quatro quartos do apartamento. Ela nunca adentrava aquela ala quando anoitecia. Lembrava-se de que, ao procurar uma empregada há uns vinte anos atrás – ou seriam trinta? – só fez duas exigências: que a futura funcionária não pernoitasse no apartamento e que respeitasse sua privacidade. Piedade foi eleita justamente por preferir dormir em casa, na companhia do arremedo de família que possuía. Melhor assim. As noites de Horácio demandavam solidão e isolamento. A convivência dele consigo mesmo, inclusive, já era desgastante o suficiente.


Ao lado da poltrona havia um grande espelho, no qual Horácio resvalou o olhar e acabou dando de cara com sua imagem. Já há alguns anos que não acreditava naquilo que se descortinava quando acidentalmente olhava para um espelho. Tratava-se de um tipo recurvado, com cabelos que já foram densos e hoje não passavam de uma penugem branca, como também o eram as sobrancelhas e os tufos de pelo que teimavam em sair pelo nariz e orelhas. Parecia, num todo, com um grande nabo mofado. Os olhos aquilinos e mesquinhos perdidos sobre um nariz de dimensões continentais, tudo fixado acima da boca estreita e crispada, complementavam a face que, até onde lembrava, nunca tinha sido atraente. Os braços enrugados pendurados ao longo do encosto da poltrona ostentavam, como ápice de sua feiura, duas mãos gigantescas munidas de feixes de dedos retorcidos. Estes sim já haviam tido tempos melhores.


Num lampejo, recordou-se daquelas mesmas mãos, sem rugas, as unhas bem cuidadas, dançando animadamente sobre teclas brancas e negras. As lembranças vieram como um relâmpago, após o qual o respectivo trovão não se constituía em estrondo, mas sim em um inconfundível e soberbo som de cordas. Não cordas aviltadas por longos arcos de crina equina, ou tensionadas diretamente por dedos vacilantes. Não. Acima de tudo, eram cordas acionadas por pequenos e complexos marteletes, estes sim ativados por falanges especialmente treinadas. Sentiu nitidamente, ao longo de toda a espinha, a corrente elétrica disparada pela lembrança da amplitude sonora de um autêntico Steinway & Sons. Nenhum instrumento feito pelo homem poderia ser comparado àquele piano em dramaticidade e apelo espiritual. Principalmente quando usado com tamanha perícia, ao entoar peças profundas como Hungarian Rhapsody de Franz Lizt.


O devaneio cessou quando se viu, novamente, fitando aquele rosto idoso e repulsivo no espelho ao lado da poltrona, em frente à cama. Por um segundo, algo no quarto pareceu levemente sem sentido. Demorou outro segundo para compreender o que era: a música, habilmente tocada no piano, não havia desaparecido. Piscou novamente os olhos e apurou os ouvidos. A música continuava.


Levantou-se da poltrona e caminhou pelo quarto, confuso. Ora, teríamos um novo pianista no prédio? Horácio residia naquele edifício, pelo que se lembrava, há pelo menos 35 anos. Ali morara com sua falecida esposa, o diabo a tenha, e criara sua ingrata Elisa. Mesmo sendo um homem irascível e isolado, conhecia todos os outros quinze proprietários do Edifício Ludwig. Seria impossível não conhecê-los após tantas reuniões de condomínio absolutamente inúteis, além dos indesejáveis encontros no elevador. A maioria era composta por velhos infelizes como ele, com exceção dos apartamentos no primeiro e segundo andares, comprados por jovens casais yuppies com filhos. Até onde sabia, nenhuma daquelas pessoas tinha um piano. E mesmo que houvesse uma preciosidade daquelas nas garras de algum desses idiotas fúteis, não era concebível que soubessem tocá-lo com tamanha destreza.


A canção progredia com sua melancolia característica, em acordes menores, enquanto Horácio decidiu se levantar e procurar sua origem. Estaria confundindo uma reprodução mecânica, como a de um Compact Disc, com a interpretação ao vivo? Impossível. Possuía centenas de discos dos mais variados compositores clássicos e sabia muito bem a diferença entre o som vivo de um piano e a textura abafada, carente de frequências médias, de uma gravação. Ao sair de seu quarto, logo percebeu que a intensidade do som aumentara, ampliando-se gradativamente enquanto caminhava em direção à enorme sala de visitas. O recinto, espartanamente decorado com gravuras de Delacroix, tapetes em tom pastel e um conjunto de sofás que quase passavam despercebidos frente à amplidão do entorno, continha também seu próprio Stenway & Sons, um luxo ao qual Horácio cedera ainda no início de sua carreira. Mas o som que ouvia naquele momento não partia do piano empoeirado e mudo em sua condição decorativa, mas parecia reverberar a partir do jardim de inverno, localizado discretamente atrás do instrumento. Mais precisamente, a canção ressoava em ondas sincopadas a partir da janela elevada que fazia a ventilação do jardim, janela essa que dava para um prisma interno ao edifício a respeito do qual nunca pensara. Provavelmente o prisma faria refletir a música tocada em qualquer um dos apartamentos, desde que o piano estivesse localizado na sala, como parecia ser o caso. Recuou, ainda atônito com a impossibilidade de distinguir inclusive se o som viria dos apartamentos inferiores ou superiores, e foi se sentar em um dos sofás para refletir.


Foi atingindo então pelo fim da canção anterior, emendada quase que irresponsavelmente com o inconfundível início de uma Polonaiese em lá maior de Chopin, conhecida como “Heroic”. Mas o que raios se passava na cabeça daquele pianista maluco? Alternar assim obras com características tão distintas? O espectador sequer conseguiria se recuperar da fleuma deixada pela música anterior, sendo obrigado a retorcer as entranhas para aceitar a alegria vulgar e genial da sonata de Chopin. Parecia até coisa de amador, não fosse a execução praticamente perfeita de ambas as músicas.


A ansiedade começava a tomar conta de Horácio. Não podia aceitar que naquele edifício de biltres acéfalos houvesse um pianista de tamanha competência, mas que não conseguia organizar seu repertório. E sequer sabia dizer quem era o artista, se jovem ou velho, se morador ou visitante! Crispou os dedos sobre os joelhos ao se lembrar de que, no ano anterior – ou teria sido há mais tempo? - após constatar que a música clássica o deixava em um profundo estado de melancolia e agitação, decidiu-se por nunca mais ouvir o rádio e nem os discos que colecionara por toda a vida. Estava como que em um bem sucedido processo de desintoxicação, e agora aquele pianista fantasma aparecia para estragar tudo. Suspirou ao ter a certeza de que, enquanto não descobrisse quem era o instrumentista e lhe dissesse uma ou duas palavras sobre a música e seu contexto interpretativo, não haveria descanso para sua pobre alma.


Um vago tilintar emergiu por entre a sucessão de acordes alegres da Polonaiese, o que causou uma irritação ainda maior em Horácio. Mas por acaso agora decidiam acompanhar a música com sinetas de igreja? Foi quando se deu conta de que se tratava do telefone. Levantou-se rumo ao aparelho sobre o aparador, tossiu três vezes e tirou-o do gancho sem dizer nenhuma palavra. Do outro lado sentia-se a tensão duvidosa de quem não sabe se está sendo ouvido ou conversa com os fios dos postes:


- Hum... Alô? – interpelou a voz num tom jovial.


- Sim?


- Senhor Horácio Monteiro?


- Pois se telefonou para a casa dele, quem haveria de ser?


- Desculpe Horácio, sou eu, o doutor Ricardo. Incomodo?


- Doutor Ricardo... se me lembrasse quem era talvez não incomodasse. – emendou Horácio com um sorriso de pleno sadismo.


- Escuta Horácio, queria apenas lhe dizer que recebi o resultado de seus exames e preciso lhe ver com certa urgência. Já falei com Elisa, e agendamos uma vista sua em meu consultório para depois de amanhã. Aí aproveitamos e lhe dou uma nova receita para os remédios. Aliás, você os tem tomado, não é?


- Por quem me toma, doutor... Ricardo? Não sou desses que despreza os conselhos dos médicos. Se me receitou remédios, devo estar tomando. Agora que sou um tutelado sem vontade própria, nem poderia me dar ao luxo de deixar de seguir qualquer recomendação. Tem mais algo a me dizer? Estou em meio a algo importante.


- Tudo bem, Horácio. Só gostaria de lhe pedir que não saia de casa sozinho até que venha ao consultório, por favor. E que não perca a consulta. Boa noite!


Com uma careta de enfastio e sem responder ao educado cumprimento do médico, desligou o telefone. Tirou do bolso da calça uma pequena caixa com comprimidos, que manteve em suas mãos enquanto ouvia o pianista finalizar a canção anterior e emendá-la, sem um suspiro sequer, com “Claire de Lune” de Debussy. Refletiu por um instante sobre a intempestividade daquele pianista, quando lhe veio à mente que, obviamente, o músico também poderia ser uma musicista. Pois amanhã haveria de descobrir em todos os detalhes quem era aquela pessoa e o que queria tocando o piano assim irresponsavelmente às dez horas da noite.


Cansado de tantas reflexões ao longo daquele dia, Horácio apoiou-se no banco de seu piano e passou as mãos por sobre a tampa do teclado. Uma sensação estranha tomou conta dele, como se um denso nevoeiro tivesse adentrado pelas janelas e encoberto os objetos ao seu redor. Era como se as cores do mundo desbotassem repentinamente, e os sons estivessem sendo reproduzidos dentro de uma gigantesca concha. Afinal, que música era aquela que ouvia?


***


Ao entrar no apartamento pela porta principal às seis da manhã, hábito que Piedade fazia questão de cultivar apenas para irritar o velho patrão, encontrou-o dormindo profundamente no sofá da sala. Em todos aqueles anos de trabalho não houve uma única noite em que Horácio tivesse feito uma coisa daquelas. Por tratar-se de um homem sistemático e reservado, deveria cumprir rigorosamente sempre o mesmo ritual noturno, coisa que somente podia imaginar já que não tinha autorização para permanecer nos quartos após o anoitecer. Coçou o queixo, resignada, e pigarreou alto duas vezes com o intuito de acordá-lo. O velho começou a se movimentar lentamente, primeiro mudando a posição em que estava deitado e depois balançando lentamente as pernas e braços, como que saindo de um estado catatônico. Abriu os olhos repentinamente e, ao ver Piedade plantada a sua frente, grunhiu entre dentes:


- O que faz em meu quarto, sua voyeur desavergonhada? Não sabe que em hipótese alguma deveria aparecer por aqui?


- Se estivesse em se quarto, eu certamente estaria descumprindo as regras. Mas como resolveu descansar seu mau humor aqui na sala, quem está a me incomodar é o senhor.


- Como ousa! Que afronta, em minha própria casa! Não sei o que se passa comigo que não a mando porta afora.


- O senhor não o faz porque precisa de mim, e sabe muito bem que o trato como a um marajá. Agora vá para o quarto se recompor enquanto preparo seu café, patrão. – ordenou Piedade, frisando de forma desnecessária a última palavra.


Horácio se contorceu ao levantar do sofá, com dores horríveis nas costas. Mas como raios havia deixado que aquilo acontecesse? Como num turbilhão, lembrou-se de todos os fatos da noite anterior. A música etérea vinda de sabe-se lá onde, o repertório clássico belo, mas desconexo e, por fim, a espécie de vertigem que o atingiu. Deve ter adormecido após aquele breve mal estar. Mas uma vez, a idade lhe pregava peças desprezíveis.

Levantou-se em meio às dores e foi direto para a cozinha do apartamento.


- Piedade, preciso perguntar-lhe uma coisa importante. Ontem ocorreu algo que me incomodou muito e gostaria de apurar alguns detalhes antes de fazer uma reclamação formal junto ao energúmeno síndico deste cortiço com nome de compositor alemão.

- Pois não, Seu Horácio. O que seria tão importante?


- Quando me preparava para dormir algum irresponsável neste prédio desatou a tocar o piano e o fez até as mais avançadas horas. Não bastasse o barulho, selecionou sonatas especialmente irritantes para ouvidos cansados como os meus. Como você mesma viu, acabei vagando pela casa sem conseguir conciliar o sono e adormeci no sofá, algo certamente insalubre para um idoso como eu.


- Mas porque não interfonou para o porteiro e solicitou que fizessem silêncio, ora essa?


- Não me recordei disso. Por acaso devo eu ser aquele a chamar as pessoas de volta à razoabilidade? Justo eu, que a ninguém incomodo? Apenas me diga Piedade, para que não me irrite mais, se por acaso já ouviu em algum outro dia alguém tocando piano neste prédio.


- Veja Seu Horácio, não passo o tempo aqui de papo para o ar apurando os ouvidos para qualquer som que ecoe pelas janelas. Garanto ao senhor que nunca ouvi o som de um piano por aqui. O maior conhecimento que possuo a respeito é sobre como tirar o pó e encerá-los. Respondi a sua pergunta?


- Obviamente uma resposta de todo inútil, mas já é alguma coisa. Isso quer dizer que alguém deve ter se mudado aqui para o prédio e arrastado atrás de si um pobre piano para ser martelado todas as noites. – zombou Horácio.


Piedade deu de ombros, sem saber como aquilo poderia irritar tanto a alguém tão ligado a música quanto Seu Horácio, e prosseguiu com seus afazeres. Servido o café-da-manhã, o velho cumpriu seu ritual matinal de asseio e vestiu seu surrado conjunto de bermuda e camiseta que insistia em utilizar para as breves caminhadas diárias no calçadão de Copacabana. Era o único momento do dia em que saía de casa, e não pretendia deixar de fazê-lo em função da estranheza dos últimos acontecimentos. Algo emergiu em sua mente como um alerta, uma sensação de que não deveria deixar a casa por um motivo qualquer do qual não se lembrava. Engoliu em seco e decidiu sair assim mesmo. Seria, sobretudo, uma excelente oportunidade para fazer nova abordagem em busca do pianista oculto. Abriu a porta da cozinha de modo que Piedade soubesse que ele sairia, coisa que ela de todo reprovava, e adentrou o elevador.


Na portaria, como em todas as manhãs, encontrou Alcebíades sentado atrás da centenária mesa de mogno que ocupava grande parte da área que conduzia à suntuosa entrada do edifício. Alcebíades era porteiro daquele prédio mesmo antes de Horácio ter se mudado para lá, o que significava que trabalhava ali desde os dezoito anos de idade. Hoje, com mais de cinquenta, já alçado ao cargo de zelador, era considerado patrimônio inalienável do condomínio, sobretudo por sua extrema e por vezes excessiva gentileza com os moradores.


- Muito bom dia Maestro Monteiro! – festejou Alcebíades.


- Nem tanto, meu caro. Hoje acordei com dores pelas costas em função de ter dormido no sofá, algo totalmente inapropriado para uma pessoa frágil como eu.


- Frágil, o senhor? Pelo contrário, está vendendo saúde! Mas o que o teria incomodado esta noite, senhor?


- É neste ponto que queria chegar. Ontem à noite alguém se pôs a tocar piano e o fez ininterruptamente por quase duas horas. O problema é que o som estava percorrendo o prisma do prédio e adentrando em cheio ao meu apartamento, assim como também deve ter chegado aos seus aposentos. Quem consegue dormir com um concerto sendo executado no próprio edifício? Gostaria de saber, caso você possa me informar, quem seria o músico inoportuno. Quero fazer uma reclamação formal.


O zelador parecia surpreso com o que Horácio havia dito, e imediatamente se armou de uma expressão pensativa. Escolheu cuidadosamente as palavras ao responder.


- Agora que o senhor mencionou, ontem tive a alegria de ouvir lindas músicas tocadas ao piano, coisa que, como o senhor deve saber, um simples zelador não possui muitas oportunidades de vivenciar. Lá da minha casa tive a impressão de que a música partia de algum dos apartamentos mais altos. Cessou totalmente antes das dez horas, respeitando a lei do silêncio.


- Quer dizer que você também não tem ideia de onde pode ter vindo – emendou Horácio desapontado. – Vamos tentar outra abordagem. Por acaso alguma nova família teria se mudado recentemente para esta ruína em forma de edifício? Algum visitante que tenha trazido consigo um piano?


- Veja Seu Horácio, como bem sabe, Dona Elizabeth do décimo terceiro andar faleceu recentemente vítima de infarto. O apartamento dela atualmente está sendo visitado apenas por uma das netas, que se ocupa dos objetos da avó, organizando e catalogando tudo para alguma exposição ou algo que o valha. Agora que o senhor comentou, tenho a impressão de ter visto mesmo um piano na sala do apartamento em uma de minhas visitas para trocar a resistência do chuveiro. Mas acho improvável que...


- Então está a me dizer que uma fedelha munida de um piano vagabundo, que é o que Elizabeth deveria ter em casa, é a responsável por todo aquele circo de ontem à noite? Pois se for isso mesmo, há muitas coisas que eu preciso reaprender sobre música nessa minha vida de aposentado. Ao menos, tempo não me falta - interrompeu Horácio com um ar irônico. De certa forma, a possibilidade do pianista misterioso ser apenas uma jovem despreparada lhe dava um certo alívio. As preciosidades de ontem não deveriam passar de três a quatro músicas bem ensaiadas, e não porções marginais do talento de um grande músico, como imaginara.


- Veja Seu Horácio, não estou afirmando nada, apenas respondendo ao que me perguntou. – complementou o zelador.


- Basta, Alcebíades. Como de hábito, você me foi de grande utilidade. Agora já tenho ao menos uma pista para seguir. Agradeço pelo seu tempo, e tenha um bom dia! – Horácio encerrou a conversa abruptamente, caminhando a passos largos em direção ao elevador. O passeio matinal que fosse às favas, tinha mais o que fazer.


***


Durante todo o dia Horácio aguardara impacientemente. Tinha quase certeza de que antes do anoitecer nenhuma música seria ouvida no Edifício Ludwig. De fato, as horas custavam a passar enquanto o silêncio corriqueiro do apartamento ameaçava sua persistência. Sequer conseguira tirar seu cochilo pós prandial, o que lhe deixava ainda mais ansioso. Postou-se por poucos minutos em frente às janelas para apreciar a vista do mar e perseguir transeuntes à distância, mas não sentiu o menor ânimo de empreender o passatempo. As horas passavam num ritmo estranho, por vezes se arrastando, por vezes em saltos. Em alguns momentos se esquecia completamente do episódio da noite anterior, a ponto de perguntar-se qual o motivo de tamanha agitação. Em certo momento, um pequeno despertador soou insistentemente sobre o aparador da sala. Sabia que aquele relógio estava ali para lembrá-lo de alguma coisa, mas o que seria? Não conseguia sequer arriscar. No entanto, o ruído trouxe de volta as recordações da última noite, e assim o ciclo se repetia.


Engoliu o jantar servido por Piedade, que estranhava bastante o silêncio e agitação de Horácio ao longo do dia. Estava acostumada com o mau humor do patrão, mas até ela se surpreendeu quando, após concluir sua refeição, Horácio praticamente a botou fora do apartamento.


- Deixe os pratos sobre a mesa, as panelas sujas e tudo onde está. Nunca fizeste nada direito nesta casa, e não será hoje que irá se redimir. Quero apenas ficar sozinho. Boa noite.

Piedade ainda tentou resmungar alguma coisa e perguntar se ele havia tomado seu remédio, mas não havia meios de fazer o velho se acalmar e responder o que perguntara. Fez uma anotação mental de ligar para Elisa ao chegar a sua casa e relatar o que vira.

Ao ficar só, Horácio se posicionou no sofá da sala e aguardou. Eram oito horas da noite em ponto. Durante alguns minutos nada aconteceu, até que languidamente alguns acordes flutuaram a partir do jardim de inverno, preenchendo de forma lenta e gradual toda a amplidão da sala. Era inconfundível. A “Sonata ao Luar” de Beethoven, apesar da vulgarização, era talvez uma das músicas preferidas de Horácio. Bela, profunda, triste. Explorava o silêncio e a breve hesitação que antecedia o acionamento de algumas das notas, repassando ao ouvinte de forma eficiente a melancolia em estado concentrado. Após o êxtase inicial, lembrou-se do que havia ensaiado fazer durante todo o dia. Precisava conhecer o intérprete daquelas músicas.


Saiu de seu apartamento em desabalado frenesi, vestido apenas com seu pijama e o velho roupão adquirido em Paris. Ouvia ainda o trecho final da sonata enquanto dirigia-se às escadas. Sua intenção era galgar os dois andares que o distanciavam do apartamento da finada Elizabeth e surpreender a pianista em plena execução da música. A contragosto percebeu que, da escada, nada conseguia ouvir. Subiu os quatro lances de degraus o mais rápido que pode, o que lhe custou trinta segundos para recupera o fôlego ao chegar ao décimo terceiro andar. Já refeito, percebeu que mesmo ali, que deveria ser a fonte sonora, nada mais se escutava. Mesmo assim, imaginou que pudesse pegar a jovem pianista trocando as partituras, evitando as emendas abruptas de ontem, o que já era por si só um grande avanço. Sem nenhuma dúvida, apertou a campainha do apartamento mil trezentos e um.


Levou um tempo incalculável até que algum movimento ocorresse, e durante este período Horácio chegou a se perguntar duas vezes o que estaria de fato fazendo ali. De forma repentina, a porta foi entreaberta e revelou a atual ocupante do apartamento. Ao contrário do que fantasiara, tratava-se de uma mulher beirando os trinta anos, de rosto triangular e macilento, cabelos castanhos ressecados e olhar vacilante. Era de todo feia, sem atrativos e de expressão imbecil. Por alguns segundos ambos trocaram olhares de incompreensão e dúvida, quando a moça finalmente quebrou o silêncio de gelo que se formara:


- Pois não senhor Monteiro? A que devo a visita? O senhor está precisando de alguma coisa?


Enquanto a moça falava, Horácio esticava de forma desavergonhada um pescoço curioso para dentro do apartamento. Não via nenhum sinal do piano mencionado por Alcebíades.


- Boa noite, senhorita...


- Betânia.


- Já nos conhecemos?


- Passamos um pelo outro diversas vezes no hall do edifício, quando costuma sair para seus passeios matinais. Alcebíades mencionou quem era o senhor, e obviamente minha avó falava muito dos moradores do prédio, principalmente dos de maior notoriedade, como é o seu caso.


Horácio não conseguia compreender a que ela se referia. Queria mesmo era vasculhar a sala e descobrir se haveria ali um piano.


- A senhorita me permite entrar?


- Mas é claro. Acompanhe-me, por favor.


Ao adentrar a sala do apartamento mil trezentos e um, logo notou que as condições gerais eram muito inferiores às da sua própria unidade. O papel de parede estava manchado e solto, o assoalho desgastado e sem brilho. Mas, acima de tudo, observou que na parede esquerda do recinto repousava um piano vertical da marca Petrof, de origem tcheca, bastante envelhecido e empoeirado. Havia pelo menos uns trinta anos que não deitava os olhos sobre um daqueles. Não teve paciência para maiores circunlóquios e foi direto ao assunto.


- Serei bem direto senhorita Betânia. Não vim aqui para visitas ou cortesias que na minha idade já não podem ser forçadas ou disfarçadas. O que motivou minha vinda são as músicas que a senhorita tem tocado naquele velho piano ali, e cujo som surpreendentemente se assemelha a um piano de cauda. Deve ser minha audição que já não se encontra no melhor estado, mas me parece que, apesar de pequenas falhas, a senhorita possui um grande talento. Eu diria que um talento que poderia ser trabalhado em prol da perpetuação da música clássica. Nesta dolorosa fase da minha vida tenho até que evitar a exposição constante à música, que me deixava excessivamente macambúzio, e por isso vim até aqui...


- Não compreendo a que se refere, senhor Monteiro – interrompeu a neta de Elizabeth.


- Por acaso tem problemas de audição? Estou a falar das musicas. Agora mesmo você acabou de interpretar, com alguma dificuldade, admito, a magnífica “Sonata ao Luar de Beethoven”.


- Veja senhor Monteiro, deve estar havendo alguma confusão aqui. De fato, na noite passada ouvi um piano sendo tocado por uma ou duas horas, mas como não sou conhecedora do assunto, não dei muita atenção. Depois da morte de minha avó, venho aqui somente em alguns dias da semana para organizar seu espólio e obras de arte, que serão doadas a um museu. Este piano também terá um museu como destino já que, ao que parece, está avaliado em alguns milhares de reais. Mas eu juro para o senhor que nunca, em momento algum, me sentei para tocá-lo. Não por falta de vontade, mas por incapacidade mesmo.


E neste momento Betânia acenou para Horácio com a mão esquerda. Foi quando ele finalmente notou que havia algo de errado com aquela mão. Algo de muito errado. Praticamente lhe faltavam os dedos mindinho, anular e médio, restando apenas um arremedo de indicador e um polegar com aspecto de imobilidade. Era certamente uma deficiência de nascença. Imediatamente, Horácio sentiu palpitações lhe acometerem o peito. Caminhou em marcha a ré, cambaleante, enquanto balbuciava um pedido de desculpas à pobre moça. Queria somente retornar à segurança de seu apartamento, mas lembrou-se logo de que não conseguira resolver o mistério do pianista oculto. Desceu as escadas em disparada, e agora receava que a música voltasse. Se não vinha de lá, de onde viria? Se Alcebíades não soubera lhe dizer, quem saberia? Ou estariam lhe pregando peças, atormentando um velho por puro sadismo?


Não conseguia responder a nenhuma daquelas perguntas. As palpitações logo se converteram em uma agitação geral, que foi amplificada em poucos instantes após ter irrompido à familiaridade de sua sala de estar. O que receava, de fato, aconteceu. Como uma trilha sonora macabra para um filme de comédia, ouviu-se por todo o recinto a alternância alegre do “Rondó alla turca” de Mozart. O som parecia agora vir de todas as direções, e não somente da janela do jardim de inverno. Procurou pela garrafa de água no bar ao lado da mesa e, segurando um copo com a mão trêmula, tomou-a toda em sucessivas parcelas. Sentia uma sudorese desenfreada, um calor insuportável nas mãos enquanto os pés se enregelavam. A música prosseguia com sua falsa vivacidade, mas Horácio sabia que no fundo Mozart não devia ter sentido alegria ao compor aquilo. Era demasiado banal e dançante, mas restavam embutidos na canção alguns trechos que revelavam certa dramaticidade contida, certa hesitação rítmica. Agora tinha certeza de que haviam escolhido aquela sonata de propósito para infernizá-lo, quiçá matá-lo de raiva.

Pensou em telefonar para pedir ajuda, mas não conseguiu se lembrar do telefone nem do nome de ninguém. Em desespero, tapava os ouvidos com as mãos tentando recordar se a música estava próxima do final. Foi quando o silêncio foi devolvido à sala por alguns segundos, dando lugar a uma melodia que desconhecia. Tratava-se de uma sucessão lenta de notas em escala menor, que evoluía de forma ritmada como o pulsar de um coração. Aos poucos iam sendo adicionados outros elementos, ampliando o tom dramático da música, mas mantendo sua fundamental beleza. Estava sobretudo surpreso por não conhecer aquela canção, ele que tanto de sua vida dedicou a vasculhar a obra de todos os compositores relevantes. Em meio a vertigens, as mesmas que lhe acometeram no dia anterior, sentou-se no banquinho de seu piano de cauda e retirou da estante a sua frente papel e caneta. O nevoeiro adentrou a sala, enquanto ele se esforçava para ouvir os acordes e anotá-los no papel pautado. Em êxtase, prosseguiu na atividade por alguns minutos. A qualquer momento a música poderia terminar, então nenhum átimo de atenção poderia ser desviada da atividade. Naquele instante, sentiu-se ele mesmo o elemento de união entre o sublime e o real, entre a efemeridade do que se escuta e a perpetuidade do papel. Ali, com a caneta nas mãos, percebeu que entendia finalmente para que havia vindo a este mundo desprovido de sentido. Por fim, tudo se desvaneceu entre névoa e escuridão.


***


Elisa chegou muito cedo ao Edifício Ludwig, antes mesmo de Piedade. O telefonema que ela lhe dera ontem a havia deixado preocupada. Não que estranhasse certas atitudes aleatórias e turronas do pai, que estava em franca decadência mental, mas nem em seus piores dias, pelo que sabia, havia ele deixado de fazer sua caminhada matinal e tomar os remédios receitados pelo doutor Ricardo. O último período crítico do envelhecimento do pai havia sido quando foi necessário privá-lo da música, dado seu estado de agitação e confusão toda vez que colocava uma sinfonia ou peça qualquer para ouvir. A privação de algo que era o próprio sentido de sua vida fora um duro golpe, que inclusive acabara por acelerar a degeneração de seu estado psíquico. Tratando-se de recomendação médica, não havia mais o que ser feito.


Apesar de todos os defeitos do pai, da forma grotesca com que tratara sua mãe em vida, do total descaso com sua própria criação e formação, hoje conseguia compreender melhor tudo que se passara. Ficava imaginando o que aconteceria se ela mesma, escritora já com algum nível de reconhecimento, tivesse que se afastar da literatura em função de crises de pânico. A literatura era sua vida, assim como a música resumia a essência da vida do pai. Apesar de ainda ser muito jovem, lembrava-se nitidamente das crises depressivas, de pânico, de terror, que passaram a acometê-lo toda vez que subia ao palco para executar um de seus muitos concertos. O último deles, na Ópera de Budapeste, havia sido especialmente trágico. Mal subira ao palco, trêmulo e desconcertado, e já foi possível saber que não conseguiria concluí-lo. Interpretou perfeitamente duas canções de Dvorák, mas expressando tamanho sofrimento físico que levou a plateia a um constrangimento generalizado. O programa da apresentação informava que ele tocaria ainda mais quatro sonatas de sua própria autoria. No entanto, sequer conseguiu executar os acordes iniciais da primeira delas. Levantou-se, por fim, com olhar perdido, como se não soubesse onde estava. Saiu amparado do palco por seu assistente, e nunca mais voltaria a subir em outro durante toda a vida.


Enquanto engolia a tristeza destas recordações, adentrou, pela porta da frente, o apartamento do pai. Havia atingido tal fama internacional como intérprete e compositor que, mesmo cessando os concertos, recebia anualmente polpudos royalties pelas vendas de discos e reprodução de suas músicas em filmes, até mesmo nos atuais serviços de streaming. Com isso, levava uma vida tranquila e habitava sozinho aquele gigantesco apartamento, mesmo porque, nos últimos anos, ninguém mais, senão Piedade, poderia aturá-lo diariamente.


Logo ao entrar na sala engoliu em seco frente à visão que se descortinava. Entre os delicados raios de sol da manhã, emoldurados pela vastidão do mar, viu o pai assentado de forma ereta sobre o banco do piano, cercado por folhas de partituras, olhando fixamente para as teclas. Por alguns instantes foi atingida pela visão do pai em seus melhores tempos, dominando enormes salsas de concertos somente com a sublime música produzida por suas longas mãos. Apesar de muitíssimo envelhecido, a postura era a mesma daquela época. Enxugando uma lágrima que insistia em se derramar pela face esquerda, chamou pelo pai da forma mais carinhosa que podia. Uma vez. Duas vezes. Não havia resposta. Aproximou-se dele com passos lentos, não conseguia ainda ter uma visão completa de seu rosto. Recostou a mão direita sobre seu ombro e o chamou novamente. Nada. Foi então que decidiu se posicionar no estreito espaço entre o piano e o pai, e finalmente confrontou-o. Não havia expressão alguma. Os olhos, apesar de abertos, eram como janelas escancaradas para o vazio.


Puxou então o enorme corpo do pai pelo braço, que levantou do banco sem oferecer resistência e se deixou conduzir até o quarto, onde foi deitado calmamente na antiga cama. Não disse nada no percurso, e parecia não notar a presença da filha. Elisa retirou da bolsa seu telefone e fez uma chamada. Deu explicações rápidas e desligou. Ouviu então os ruídos da chegada de Piedade, que imediatamente notou as estranhas condições da sala, repleta de papéis espalhadas pelo chão. As duas mulheres se encontraram no corredor que levava para os quartos.


- Ele não está bem Piedade. Parece que está em estado catatônico.


- Infelizmente, querida, sabíamos que este momento chegaria – disse Piedade, da forma mais carinhosa que conseguia.


- É estranho. Há anos que não o via na frente de um piano, mas o encontrei ali na sala cercado de papéis, como se estivesse compondo. Como nos velhos tempos.


- Foi o que lhe disse ontem, Elisa. Seu pai me abordou ontem com uma conversa muito estranha sobre alguém tocando piano no prédio. Fiquei confusa, pois sabemos que ele sequer se aproximava do instrumento nos últimos anos. Agora, quando cheguei, o zelador me relatou a mesma coisa. Ao que parece, Seu Horácio o interpelou sobre alguém tocando piano na noite passada. Sem querer contrariá-lo, preferiu não dizer que a música só poderia ter vindo daqui.


- Alcebíades me contou quando cheguei – assentiu Elisa. – Disse ainda que meu pai apareceu no apartamento da Dona Elizabeth de forma totalmente inapropriada, com trajes de dormir, e acabou deixando a pobre moça que estava por lá bastante assustada. Acabei de ligar para o doutor Ricardo, pedindo que viesse com urgência.


- Vamos aguardá-lo, então. Enquanto isso, preparo o café da manhã. Precisamos estar sempre bem alimentadas, mesmo nestas situações.


Elisa se voltou novamente para o pai, ainda de olhos abertos, agora fitando placidamente o teto do quarto. Lamentou-se por não ter dado a devida importância à lenta degradação mental do pai. O médico dizia que não se tratava de Alzheimer, mas algum dos mais de trezentos tipos diferentes de demência que podem nos acometer com o avançar da idade. Ainda estavam investigando. O fato é que o pai, cada dia mais, esquecia fatos corriqueiros do presente, além de anos inteiros de suas experiências passadas. Esquecia o nome das pessoas, o horário dos remédios. No mês passado havia perdido o caminho de volta para casa após o passeio matinal no calçadão. Só não o proibiu de sair, pois acreditava que isso acabaria com sua vontade de viver. E enquanto procurava por uma acompanhante para dar maior segurança ao pai, parece que a deterioração se acelerou.


Foi para a sala recolher as partituras jogadas no chão. Notou logo de cara a caligrafia precisa do pai recobrindo todas as folhas com colcheias, semibreves, mínimas e fusas. Ela mesma havia estudado piano por insistência do pai, então conseguiu muito rapidamente avaliar que não se tratava de uma música que já tivesse ouvido. Conhecia as mínimas nuances de toda a obra anterior de seu pai, o famoso pianista Horácio Monteiro, mas nunca havia visto aquilo que estava a sua frente. Revolveu então as folhas em busca da primeira página da partitura. Encontrou-a sob o piano. No cabeçalho, constava o título “Último Adágio”, restando vazio o espaço destinado ao nome do autor. Com um sorriso, não pode deixar de pensar que, naquela que talvez fosse sua última obra, o pai havia se transmutado na essência do que mais amara em vida: a própria arte. Despersonalizada, universal, um fim em si mesma. Um bastião resistente à memória. Um último adágio.



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