• Renato Fernandes

O mensageiro trácio

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Certa feita, Jairo, o rei tirano da Trácia, recebeu no salão abobadado de seu palácio um homem que exarava uma inquestionável aura de apreensão. Tratava-se de Lubiano, o observador das fronteiras com a Pérsia. O homem já adentrou o recinto em reverência para se antecipar às formalidades e abordar diretamente o assunto que o levara a tão extenuante viagem.

- Majestade, venho vos informar que os persas se aglomeram na fronteira oriental do império. Reuniram tantos guerreiros que a vastidão de suas tropas se confunde com o próprio horizonte. Temos informações detalhadas de seus planos, que se iniciam por um ataque surpresa seguido de uma segunda e imprevista investida. Quais são as ordens de vossa majestade?

- Lubiano, - trovejou Jairo - por acaso achas que temos suficientes condições de enfrentar tal ataque?

- Não, majestade. Nossas tropas estão distantes e desorganizadas. Não esperávamos que os persas voltassem à carga tendo passado tão pouco tempo desde nosso último embate.

- Comunicaste estas terríveis notícias a mais alguém?

- Certamente que não, majestade.

- Guardas, matem-o.

A guarda particular do rei cercou Lubiano, que morreu instantaneamente após ser transpassado por cinco espadas. Das sombras do salão, emergiu então Mourano, o conselheiro favorito do trono.

- Majestade, com toda a deferência aos poderes ilimitados a vós delegados, gostaria de compreender por qual razão decidiste pela morte de Lubiano, que tão eficientemente cumpria seus desígnios.

- Mourano, é algo muito simples. Tu ouvistes da própria boca do espião que não temos condições de vencer os persas. Não desejo que saibam dessa informação, pois então questionariam se eu possuiria a sabedoria necessária para comandar o povo trácio. Dessa forma, a melhor solução é permanecermos vivendo honradamente, e que o povo saiba somente aquilo que eu decida ser pertinente frente a sua estreita visão de mundo.

- Mas morreremos todos, majestade!

- Não morreremos todos um dia? E daí, quer que eu faça o que?

Mourano se retirou, pensativo, tentando compreender a sabedoria envolvida nas decisões do mítico déspota.

No dia seguinte, o rei Jairo partiu rumo ao ocidente em uma discreta caravana, acompanhado apenas da rainha, seus três filhos e alguns escravos. Orientou ao chefe da guarda que comunicasse, a quem ousasse perguntar, que estava enfermo e num avançado estágio de convalescência. A Trácia que lutasse sozinha.

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